Nada se comparava a aquela noite: estranha e vazia. No céu, não havia estrelas, só uma nuvem cretina que escondia o brilho da lua. O vento ameaçava trazer chuva – em vão. Mas trouxe água salgada que descia de meus cristais amarelados e que podiam ser sentidas com um simples contato de saliva.
Por favor! Não quero ter paciência.
Aperto. Coração na mão. Nó na garganta. Desespero.
Precisamos crescer – e esse é o meu maior medo.
Cada um se apertava como podia e transmitia como desejava. Nos tornamos meros fragmentos de uma noite sem fim. Pequenas nostalgias. Com palavras, muitas vezes, jogadas ao vento para no fim nos tornarmos novamente desconhecidos.
Desvio de olhares e nada de aperto de mãos. Poesias enterradas e flora ressecada.
Restaram apenas pequenas fotografias que me apertam ainda mais do que as lembranças dos dias em que filosofávamos e em que eu sentia o teu cheiro. Afinal, a imagem congelada me traz a lembrança concreta da parte que eu mais gostava em você: seu sorriso amarelado e irônico ou às vezes envergonhado.
Por favor, não se torne novamente um estranho para mim.
@luanhita
Abri, pisquei e esfreguei os olhos. Meus dedos se mancharam com o rímel preto da noite passada. Meu rosto brilhava devido à purpurina e estampava o receio do que havia sido dito. Pediram-me para ser objetiva e resolver a questão de uma vez, sem enrolação. Pedido ordinário! Feito em ocasião imprópria. Não me encontrava em sã consciência. A noite havia de ter sido muito boa, com músicas e pessoas aparentemente tragáveis. Traguei-me por inteira, eu e eles. Risos, movimentos bruscos e coisas suaves. Lindo céu azul, como era bom a sensação de poder voar. Mas despenquei.
Fincaram, novamente, meus pés ao chão com o grito daquela voz esdrúxula, irônica e tão conhecida. Esfriei-me. Conclusões, decisões e cobranças, eu realmente teria que tomar alguma posição, pois viver fugindo só pioraria ainda mais as coisas. Conclui na besteira e passei a ignorar. Medíocre! Soava-me como um elogio. Eu havia agido da maneira mais baixa e tão sem escrúpulos, vistos através do coração de um bom homem. Decepção para meus pais que tanto me educaram. Mas eu nunca fui de tomar boas decisões e dessa vez não teria sido diferente.
Eu gostava de ser levada pela maré da vida. Não me importava se ela desviasse o meu caminho ou se me afogasse de uma vez. Eu realmente não me importava de morrer na praia. Doce ilusão! Borbulhava-me e mexia-me desesperadamente. Eu tentei tarde demais e morri. Morri por não ter me importado e por não ter acreditado mais. Morri por querer ser livre. Fechei e descansei meus olhos, dessa vez, não pisquei mais.
Eu só precisava de alguém que fosse suficientemente capaz de lidar com minhas loucuras.
@luanhita
Permaneceu intacta, como sempre esteve. Nada a atingia. Era imóvel e imune a qualquer sentimento. Blefe. Ela gritava no silêncio o quanto necessitava ser ouvida. Carente, sem motivos. Olhos cheios d’água, dizia ser cisco trazido pela poeira. Conteve-se e afastou-se por um tempo, mas voltou. Voltou menos acanhada, mas com poucos argumentos para rebater o que sentia e o que desejava. Viu-se em estado fútil. Desespero. Precisava mudar. Entretanto, não queria perder sua essência. Essência? Essência má de medo, vergonha e insegurança, só se for. Essência marrenta que luta contra suas verdadeiras vontades. Que verdadeiras vontades? Nem ao menos ela sabe. Semana passada um furacão invadiu a casa dela, deixando-a cada vez mais embaralhada. Logo ela desabará. E para que lado ela penderá? Talvez ela caia por inteira e se espalhe pelo chão. Assim, para ela, as coisas seriam bem mais fáceis. Ou não, ela ocuparia um espaço bem maior do que já ocupa. Essas coisas só tomariam proporções ainda mais significativas. Nada resolvido. No cartaz: procura-se solução.
@luanhita